A quem interessa o jornalismo decadente?

Hoje, ao me deparar com um post da BBC News no Instagram, percebi o quanto o jornalismo tem se distanciado de sua essência ética. O carrossel anunciava a morte da atriz Laura Cardoso, mas a segunda imagem trazia um título frio: “Morta, aos 98 anos, atriz nunca se aposentou.” A forma como foi redigido soava quase como se ela tivesse sido “mortificada”, em vez de uma despedida respeitosa de alguém que viveu intensamente e nos deixou pela idade avançada.
Não é um caso isolado. Quando Rita Lee faleceu, a Folha de S. Paulo reduziu sua trajetória brilhante ao uso de drogas, gerando indignação entre fãs e admiradores. O que deveria ser uma homenagem à sua genialidade acabou se tornando um recorte simplista e desrespeitoso.
O questionamento que fica é: por que veículos que sempre foram considerados referências de credibilidade estão adotando abordagens tão equivocadas? A resposta parece clara: engajamento. A busca por cliques, curtidas e compartilhamentos tem se sobreposto aos princípios éticos que sempre nortearam o jornalismo.
Esse movimento é preocupante. Em tempos em que as massas leem cada vez menos e consomem apenas o que aparece nas redes sociais, a responsabilidade dos veículos deveria ser ainda maior. A morte de figuras queridas exige cuidado, filtro e respeito. Mais do que informar, é preciso zelar pela memória e pela imagem de quem marcou gerações.
O jornalismo que se rende ao sensacionalismo não serve à sociedade, mas apenas aos algoritmos. E a quem interessa esse jornalismo decadente? Certamente não ao público, que merece informação de qualidade, nem à memória dos artistas, que merecem respeito. Interessa apenas a quem lucra com a desinformação travestida de engajamento.
Por Daniela Manzani, jornalista e assessora de imprensa